terça-feira, 14 de março de 2017

HYDRA














Estava tudo claro-escuro. Era um povoado de casas caiadas, esparsas, numa planície de mato ralo e arbustos retorcidos, de onde se via, ao longe, a imponente Hydra. Eu tinha sede e precisava  telefonar.  Um aldeão me deu de beber,  que bebi a contragosto, água barrenta e salobra. Não havia telefones na aldeia. Você pode encontrar água boa e telefones no topo da cidade. Muito e distante e alta estava, teria de andar muito, por íngremes ladeiras. Há tempos não exercitava minhas asas. Chegando ao topo de uma ladeira, fiquei indeciso. Não tinha certeza de que poderia voar.e um tope E foi com enorme esforço que, de um topo de ladeira, levantei vôo. Para Hydra, homem-pássaro. Levantar vôo de pequenas elevações exigia muita energia para manter a altitude e isto me cansava muito, por isso tive  que parar inúmeras vezes. E era outro sacrifício para levantar vôo novamente, porque tinha sempre de fazê-lo do cume de alguma ladeira. Sou como as pardelas de Cipango. Tenho de escalar uma árvore ou qualquer elevação para alçar vôo.
Que alivio quando comecei a distinguir os primeiros arranha-céus da cidade de Hydra. Seus tetos de vidros coloridos refletiam a luz mortiça do sol-poente.
Posei no primeiro teto que encontrei pela frente. Desci à rua. Entrei num bar. Tomei uns goles de um refresco verde vendido por um homem de cabelos também verdes. A sede não morreu por inteiro. Não quis, porém, beber outro trago. Precisava telefonar, ou melhor, tinha vontade de telefonar.
Indaguei das mulheres da cidade. Lindas diziam. Amáveis cochichavam um pouco temerosos, alguns. Adoráveis,  asseguravam, outros, mais convictos.
Andei, por entre ruas, becos e vielas, milhões d´olhos de um vago olhar aflito, cobrem-me o corpo,  assustados e curiosos, mas  pacíficas e simpáticas. Corri, de qualquer sorte era um intruso. Subi num murro e passei para outro mais alto, daí para um telhado de uma casa de onde  tomei vôo, sempre pousandoem prédios mais altos para retomar vôo. Bem  alto, já, vi um teto que era uma cuia. Que era u’a mesa. Que era uma agulha.
Abri os braços-asas na busca daquela que era a dona da cidade. Hydra.
Hydra. Mulher linda. Mulher rica. Mulher inteligente. Mulher-mulher.
E vi no mais alto dos prédios, um lindo terraço colorido e perfumado pelas flores de toda terra. Posei em seu tapete aveludado.
Hydra falava ao telefone. Hydra. Falava ao telefone.
Seus olhos verdes cor de fogo saíram de seu rosto e tocaram minha pele queimada. Seus cabelos voaram e taparam o sol.
O amarelo ficou negro. Eu apenas balbuciei: Eu ... Eu queria telefonar. - Sua presença era o mundo.
Seus braços se abriram. Looongos. Caiu o telefone que se partiu.
Suas pernas partiram,  enormes, para mim.
- Lindo, lindo homem, me  ama.
E vi sua língua em forquilha soltar pequenas gotas de um líquido que me atingiam o corpo, queimando-me a roupa e assando-me a pele. Quis tapar as narinas para não sentir o hálito fétido que exalava, mas pouco efeito fazia. Já estava todo empestiado de sua saliva.
Eu tentava voar e não mais podia. Maior era o esforço, mais perto estava ela de mim. De seus braços que esticavam. De suas cabeças, mil. De seus olhos coruscantes.
Me ama. Me ama.
E mostrava os seios  lindos. O corpo ondulante, qual uma serpente e com o fremir da dança do ventre.
Molhado estava. Queimado estava. Era uma ferida só. De sua saliva. De seus olhos.
E vi minhas asas caírem. Meus dedos. Meus braços. Minhas pernas. Meu corpo. E o nada..
Agora sou.
Sua voz. Seus olhos. Seu corpo. Seu cheiro. Sua beleza.
Eu sou a Hydra. Eu sou Hydra.




 (Publicado  na Coletânea LITANIA – O Grito da Esperança -   Contemp Editora Ltda, 1989, Salvador-Ba).




quinta-feira, 2 de março de 2017

A RONDA

                                                                                                                                        (1969)










Nós andávamos de uma rua para outra, entravamos aqui, acolá e sempre tínhamos que sair por que  nos bares não se podia permanecer sem beber. A  rua toda era uma capa espessa de gelo, onde nossos pés afundavam e se endureciam cada vez mais ao contacto da neve que ali se deixava ficar por mais de uma semana. Jussiê, coitado, talvez gemesse mais do que eu  e se lembrasse de sua meninice na catinga seca do sertão do Cariri.
O sertanejo é um nômade e está em toda parte. Todos  fugindo de alguma coisa. Mas de quê? Não sabíamos, nem eu, nem ele. Indignados mas resignados buscavam, como buscamos nós, vencer a própria sorte e talvez trazer de volta uma fortuna que não adquiriria em sua terra. O Nordestino sempre quer voltar. Secas, morte de companheiros de vadiação, profetas barbudos vociferando o nome de Deus, cangaceiros  bradando e imprecando em nome dos pobres e oprimidos, tudo os une e apesar da fuga silenciosa empreendida a cada ano de seca, formam onde se encontram uma comunidade com laços muito fortes.
Andávamos naquele deserto branco e quem sabe? Chorando a falta  de algo que se foi ou nunca existiu. Nossos sapatos molhados, nossas orelhas ressequidas, nossos lábios partidos pelo vento, nossos narizes pingotando, o corpo inteiro quem sabe? Nada  sentiria se estivéssemos encontrado o que sem saber procurávamos. Lutar é inútil, dizia, tudo é inútil, respondia, quase automático. Não há resposta para o nada. Andar sobre a lama da neve, se perguntando para onde ir. Alguém já compartilhara das nossas desditas? Não sabíamos. Com certeza já experimentamos a alegria de se dar, mas a quem? Talvez para ele,  fosse naquele dia  que ajudou a carregar  o caixão  da meiga Genoveva morta  por falta de médicos. Para mim, talvez tenha sido no dia em que chorei quando levaram Virgilina para se empregar em Salvador.
Andávamos. Sós. Corpos também se moviam sobre o gelo machucado pelos automóveis. Nos perguntávamos, por que aquela gente não nos olhava, não via apreensões e tormentos em nossas faces curtidas pelo tropical?
Às vezes, diante do espelho na mansarda de um sétimo andar da Rue  Grennelle, olhávamos  nossa cara e víamos aparecer os primeiros sinais  da desilusão.  E aquele gelo sob nossos pés se derretendo, empretecido pelas rodas dos automóveis, aumentava nossa angústia e crescia a solidão. Uma infindável nostalgia tomava conta de nós, fazendo-nos odiar aquele mundo tão rico e tão mesquinho.  Ainda assim, eu queria ficar, ele queria ficar. Mostrar ao francês de que é capaz um baiano e um cearense no mundo. Mostrar que o sertanejo é, por cima de tudo, um forte, como bem disse Euclides da Cunha. Mostrar que um prato de comida se conquista até com a morte e não se curvar diante da insolência e soberbia do europeu. Gritar a todos os cantos sua indignação perante tão desumanas pessoas, que saqueando o mundo se encheram  de bens e riqueza, deixando atrás de si um rio de sangue e miséria. Ficar. Queríamos ficar, mesmo que a multidão não nos quisesse olhar, ou que todos os proprietários nos expulsassem, como  o do bar que nos expulsou, por não termos dinheiro para beber. Dehors étrangers de la merde, ouvimos, contentes, todavia,  porque nos mostramos mais fortes do que ele, instalado atrás do balcão, protegido pelos metais, que sabíamos terem roubado das colônias. Furioso ficou, quando a todos os pulmões, sorridentes, bradamos: Ladrões da America, Ladrões da Asia, Ladrões da Africa. Ninguém resiste a um protesto não violento. O cara fica possesso. E isto é uma vitória. Estrangeiros, éramos estrangeiros.   É direito do homem à vida e logo à migração. Fronteiras só  para delimitar países, não para impedir o direito de escolha onde viver. Discriminar por  nacionalidade ou nascimento, mesmo que matar. O homem, um só. Terra de todos. Não se tem  direito de impedir alguém de escolher onde deve morar, sobreviver.  Esquecem, os estrangeiros fizeram a fama de Paris.
Voltamos ao nosso quarto na Rue Grenelle e tivemos mais um dia de frio, sem comida, quase, e sem trabalho.  Eu um artista frustrado. Ele um político atormentado. Onde estará agora quem primeiro sequestrou um avião na Europa?


     Continuação in NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

(Publicado  na Coletânea LITANIA – O Grito da Esperança -   Contemp Editora Ltda, 1989, Salvador-Ba).







quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

NÃO MORO COM ELE










                     


                                       


                           Por quê tu me perguntas isto? Que diferença faz? Estrambótico, do vestir ao sorrir. O rei da cocada preta. Não, não moro com ele. Se joga. Não o quero nem para fazer passear meu cachorrinho. Me encanta, o poder, não me assusta. Quem vai ao inferno se acostuma com o cão. A amígdala cerebral se acostuma com os atos desonestos, confirma o ditado. O mal pela cabeça, antes que ele cresça, afaste-se. Aprendi a me desvencilhar. Viver é uma arte. Emeios, zapes, bilhetinhos de coraçãozinhos. No lixo, jogo. Mesmo sem concordar com alguma coisa, faço meu trabalho. Cérebro pensante, coração amante. Desentendida. Amante, o ágape cristão. Ri, te como, um dia. Se a loba descobre. O poder corrompe. Afasta-te do inferno para não te acostumares com o demo. A glória, o general conquista, o soldado, sua. Não dividir. Não me encosto, estou sob seu bastão. Um dia, meu amigo, compreenderás esta engrenagem, quando, feito teu papel, fores defenestrado. Terrível é a vida, mas bela, aproveita-a, que o ódio faz mais mal a quem o tem, do que a quem odeias. E tu, por quê me perguntas? Imaginas tu que obediência é sujeição? Imaginas tu uma paixão assim? Todos nós temos nosso dia de descarte, tão logo termine nosso papel. É o jogo do poder. Marionetes somos, acreditando-nos titereiros, manipuladores, neste teatro de guinhol. Quando nasci, já Euclides da Cunha havia predito: o sertanejo é antes de tudo um forte. Acostumada. Quem comeu paçoca de rapadura, pegou leite na noite, lavou defuntos na morgue da Ile de France, sacudiu de volta, lacrimejantes bombas no longe de 68 não pode ter medo mais de nada, e, tendo, porque a idade nos tira a coragem e nos dá juízo. Fortalecida estou para enfrentar a vida e os preconceitos. Fulos ficam. Bahia não é Brasil. Que a Bahia seja  Brasil para pisarem. Ao me pisar, saem pisados. Não quero ódio, mas resistir ao ódio, ao preconceito, à discriminação. Aqui, sou rainha, imperatriz. Deixem-me ouvir a milonga de Cardoso. Palavras. Me levam ao nordeste. Longe, saudade da toada, dos encantos da boiada, no aboio da vaqueirama. Mas não sou manada. Entrebatem-se, enredam-se, transam-se e alteiam-se riscando vivamente o espaço, e inclinam-se embaralham-se milhares de chifres. Vibra um trepidação no solo; e a boiada "estoura"... E lá se vão; não há mais contê-los ou alcançá-los.
                            E agora José? Sabe nada, inocente!
                       Éramos. Quando dormíamos de valete, naquele oitavo andar do dezesseis, rua d`Assas, assomando, assáz frequentemente, a vontade de virarmos, cabeça com cabeça. Vontade, só. Tinhas tu, Horus, medo, de quê? Aqui, hoje, morro de vontade. Saudades de pernas roçando, do cheirinho de corpos esquentados embaixo de cobertas mau lavadas, cheirando a nós dois. Não, não tenhas medo. Corre as vistas no passado. Vês? Todos os sorrisos foram teus. Tu te lembras? Escobar me confiou a ti, que não eras seu amigo, entre tantos amigos tinha, só ali no Quartier Latin. Como ficaram com inveja de ti. Dormíamos naquela cama estreita. Cedo levantavas para fazer a menage chez Madame Zurflux. Eu ficava te esperando para ir comer na Alliance Française. Tu te lembras? Tu não gostavas muito de carne de cavalo. Eu adorava. Tu me fotografavas com tua Yashica Mat. quantas fotos ainda tenho! Me querias como atriz. Um filme, nunca saído do papel ou da tua cabeça. O filme? Noite em Paris. Plínio Alberto, sabe? Faz gozação com nossa cara. Sem começo nem fim porque a noite em Paris nunca amanhecia. Viu a gozação, nos dias de congresso? Que saco, quando mostro os ensaios. Eu nem chut! Mostro a todo mundo, só pra provocar, de quem eu gosto você sabe. Até Escobar, que é meu amigo no feice tem ciúmes. Se arrependeu de me ter deixado com você,quando foi passar um tempo com a família, a despeito de temer Franco.                                
                                  

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

TEMER JAMAIS













                                     


                                   


                                               Não, Horus, não é hora de ter medo. Aloisio não é leal a seus amigos, eles não te farão mal. Comerás o pão que o mafarrico amassou, cairás da tua escada, mas toma como lição, que lição a queda é, e com ela aprenderás que a ambição tem limites, mesmo que sejas Deus. Aqui, como em teu reino, finito e relativo é o poder. Só a mudança é permanente, não é assim, Heráclito? Assim espera Gandra de seu Portugal amado e a Milu dizendo atrás: Neste dia voltarei pra lá, quando cair Salazar. E digo: só deixo meu Cariri no último pau-de-arara. Aqui, passar uma chuva. A vida lá é ruim, quando não chove no chão, mas se chover dá de tudo, fartura tem de montão.  Temer? não temo não, voltar? quero voltar pro meu sertão. Agora, vestir uma camisa listrada e sair por aí, um canivete pro fumo e um pandeiro na mão, faço minha batucada, faço muita confusão, pois quem tem aquilo tem medo, pressão, não aguenta não. Meurimão, deixa de lera, sai daí, deste lugar, se tu sai com tuas pernas, inda podes trabaiar, se pelos outros enxotado, como é que tu vai ficá? Conselho sábio, o do povo, se principia a pensar. Eu tenho medo, quem não tem? Enraivecidos, quem controla? Morrem mil, mil e um nascem. Vida, viver é como água em pedra. Fura. 




Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

LA NOCHE TRISTE CHAPECOENSE
















                          A vida, as vezes, invade a arte, desta vez a morte foi quem a invadiu. Na sua doce ilusão, quem faz arte pensa imitar a vida. Não é assim Aristóteles? A arte, porém,  não atinge nem os pés da crueldade do real. A morte, que costuma vir com uma foice na mão, envolvida, da cabeça aos pés, com longo hábito preto, veio agora de avião. E chegou feroz, levando quase todo o elenco da Chapecoense, parte de sua diretoria, jornalistas e tripulação. Quanta luta pra chegar à Copa Sul-Americana e ir morrer nas faldas de Medellin. A morte é escuridão, que dirá a caixa preta? Que a pane seca o derrubou? Que o Serra precipitou sobre as serras de Medellin  o Bae 146 da Lamia quando impediu o fretamento de avião no Brasil, porque venezuelana a empresa? Vejo que não vivo, durmo. Uma longa noche triste. A noite que antecedia a última do ano letivo no Vieira. De saco cheio das regras do internato, provocávamos na penúltima noite uma guerra no dormitório. Travesseiros, pasta de dentes, bolas de gude, tudo que pudesse voar. Os padres iam à loucura. Não nos podiam castigar. O amanhã era a partida. La Noche Triste. Junto de sua Malinche teria chorado Cortez a perda da batalha para os astecas. La Malinche,  como muitos traidores, não chorou, porque a traição é própria dos sem lágrimas. Pouco se lhe importa. O trair é um êxtase só para quem trai, interdito aos demais, mesmo ao beneficiário da perfídia.
                  Onde andará agora os heróis chapecoenses?  E tu Danilo,  por que segurastes tanto a bola? Se alguém vir tuas defesas saberá como fazia Zé de Danié, o gato, lá em Capela. Mas tua vitória é a prova de que também ela pode nos levar à derrota. Choremos, então, tua vitória, como Pirro chorou a dele. Choremos a morte de heróis. A dor une, a alegria separa. A vitória só vem com a derrota. Não quer o Atlético Nacional,  seu rival,  que a Conmebol declare campeã  a Chapecoense?  Não estão  os clubes, agora,  propondo ceder atletas à Chape?  E pedindo para que ela não caia de divisão por três anos? Times do Brasil - Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Portuguesa, Joinville, Cruzeiro, Vasco, Fluminense e Botafogo  - estão nessa. No Paraguai o Libertad colocou seus jogadores à disposição da Chape. O Racing da Argentina vai fazer uma homenagem usando o escudo Chapecoense nas cores preta e branca no jogo contra o Boca Juniors. O Barcelona, o Arsenal, o Chelsea, o Benfica e astros como Messi, Cristiano Ronaldo e Neymer se manifestaram nas redes sociais. Corra-se o Facebook, visite-se o Twitter, passe uma vista  no Instagram, vá para Tumblr e la  verão manifestações sobre a hecatombe chapecoense. Que outro acontecimento uniria tanta gente? Enquanto o país se dilacera na mão de vendilhões e traidores, o povo desunido chora unido. A política desune, o futebol une. Não me vanglorio da morte, nem da de meus inimigos. Ela nos iguala, nos faz pensar, refletir. Vi muita gente se vangloriar da morte de Fidel Castro. Como se fossem imortais. Incapaz de enxergar até sua própria pequenez. Espírito sanguinário, mas covarde. Goza com o pau dos outros.  Salve Ximena Suárez, Salve Erwin Tumiri, Salve Rafael Henzel, Salve Follmann, Salve Neto, Salve Alan Ruschel vocês podem, sim, nos dizer que gosto tem a vida. Horus que carrega as chaves da vida e da morte vos reservou uma missão. Vão, daqui eu vejo tudo, e digam a quem quer tirar dos outros a vida, digam, vocês, a quem quer de si, tirar a própria vida, o quanto valiosa ela é, mas digam também a todos o quanto pequeninos sois para estarem aí digladiando uns com os outros no lugar de gozarem juntos a vida que lhes dei. Hoje perdoo todos meus inimigos, até tu, Aloisio Leal,  que me derrotastes na flor dos meus anos. Minha derrota foi uma vitória, tu não sabes,  também saíste naufragado. Todo vencedor traz uma veste rasgada. Não te vanglories tanto de tua vitória, sempre haverá quem conte a história que não contaste.  Não é, Madame Faure? Venceste-me por um prato de comida.  Estou aqui para contar a história que não é a tua. Se todo vencedor soubesse disto não diria, como Breno, Vae victis, ele próprio depois vencido. Não foi, Camilo?  Assim, vingado está, Didi, pensaste nisto, Quertezer?  KaRa de fome e sorriso nos olhos. Onde estarás agora, Dr. Baiúca, nos braços de Aloisio Leal, no plano celestial? Triste história de uma  justiça subserviente e acovardada. Que justiça que tu fazes para o roto e esmulambado?         
                      
                            

Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve na livrarias.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O BANQUETE














Vários prédios compunham um conjunto de estilo neoclássico alguns, barrocos outros. Pareciam serem todos construídos em estilo barroco, tendo sido remodelados depois.  Vi, em dezessete de julho de mil novecentos e oitenta oito, amplos jardins  separando-os.
Um deles, com vários pavimentos, abrigava uma espécie de cemitério ou panteão. Ornavam-no ciprestes em fileiras, longas, e, árvores diversas,  mangueiras, gameleiras tornando o ambiente tranquilo, mas sombrio e tenebroso. O ar, impuro, exalava cheiro de carne apodrecida. Insetos 
esvoaçavam por sobre mim, como  moscardos, monstros de cem olhos,  perseguindo a bela Io, paixão de Zeus.
Não sei se mais nojento o costume dos parsis, adoradores do fogo,  de não enterrarem seus mortos, preferindo deixá-los em altas torres para serem devorados por abutres. Não querem contaminar a terra. Mazda certamente é um deus moderno e ecológico.
Nos túmulos, bandejas de iguarias: garum (molho de peixe)  puls,  papa de cereais,   fava  ou  queijo, mel e  gema de ovo; bensone, bolo de farinha de trigo, leite, açúcar, manteiga, ovos, raspas de limão, fermento e sal, tinham sido depositadas como oferendas, que seriam oferecidas posteriormente aos convivas. Um túmulo me impressionou sobejamente. Ali jaz uma anciã. Um anjo desce tocando a trombeta do juízo final. Ela se levanta em prece  e num esforço descomunal suspende a laje que a prendera por longos anos e talvez séculos. Não me ocorrera que se tratava do túmulo da mãe de Le  Brun, mestre da escultura funerária.
Era dia de festa. Qual? Não me recordo. Me vi num salão amplo e multi-decorado. Havia uma mesa repleta de bandejas com guloseimas. Doces e iguarias das mais variadas qualidades e outras vinham sendo trazidas por garçons vestidos a rigor.
Minha mãe se encarregava de zelar pelas oferendas. Ela mandava de volta as bandejas de doces que já tinham cumprido seu tempo nos túmulos a fim de serem saboreados pelos visitantes.
Ajudava mamãe nesta labuta. Neste dia muita gente havia. Eu me apressava para trazer as bandejas para os convivas. A Multidão me atrapalhava nesta lida. E para não me atrasar, voava de um túmulo a outro, de um prédio a outro, passando por cima dos jardins. E como os prédios eram altos, tive de voar como um mupungu  para que não batesse nos tetos.
De repente me perdi. Não encontrei o prédio principal e já escurecia e precisava voltar ao panteão, queria comer da torta de chocolate vista naquele túmulo preto e branco, de  personalidade, por mim,   não sabida..
Voando, me distrai e dei numa igreja  repleta de gente,  ouvindo uma missa cantada por seminaristas de  batinas pretas e sobrepelizes de  alvura sem par. Missa dita no altar-mór. Fiquei parado, observando as funções, os rituais. Boquiaberto, ainda haviam pessoas religiosas.
O cântico, ali,  talvez  tocasse os presentes.  Um canto gregoriano de uma beleza simples, uníssona e contagiante. Pater noster, qui es in cælis, sanctificétur nomen tuum... Era como se tivesse voltando vários séculos no tempo. Senti como se todos estivessem suspensos no ar. Com a luz mortiça das velas, das lâmpadas elétricas escondidas nas cornijas, ou incrustadas em forma de velas em grandes castiçais ou em lustres pendentes do teto  transmitia uma atmosfera lúgubre, mágica e fantasmagórica, hipnotizava o crente e seu observador.
Andando, observava fiéis em sua oração. O barroco, o altar-mor e capelas laterais, estas, permitiam a cada um fazer  orações aos santos de sua devoção,  ou mesmo conversar baixinho, sem incomodar os demais.
Numa capela, uma mulher loira de olhos azuis, nem tanto loura, mas um pouco moura, segurava uma criança e parecia conversar com alguém atrás de uma cortina. Olhou-me com olhos de basilisco.  Não tens o poder de matar, pensei. Erraram o mais velhos. Inofensivo iguanídeo, não me importo  que tenhas teus olhos de feitiço. Vou para ti, mulher. Segura teu filho, não o deixes chorar.
Vestia um comprido vestido lilás,  à maneira grega, aberto em cada lado, deixando entrever o corpo quando em movimento. Parecia ser padre o homem com quem conversava. Era alto e bonito. Trocavam  furtivos gestos de ternura e suspendiam a criança, brincando. Olhar de ciúmes. Desejo traído pelos olhos. Quem não ama a aventura mesmo que a tema? De medo não me aproximei, mas quem há-de? Fitava-os disfarçadamente. Fingia interesse no altar, ricamente decorado com flores brancas, contrastando com o dourado do templo e o púrpura das cortinas pendentes do teto. Na capela ao lado, uma pequena audiência assistia a um sermão. Um padre hirto, barbudinho, Inspirando simpatia dizia sua homilia. “Considera-te já como morto. E, como se tu mesmo  foras outra  diferente  pessoa viva, põe-te a olhar para teu corpo defunto. Adverte como fica feio, pálido e desfigurado. Alguém de casa lhe cerra os olhos, aperta o queixo, estende os pés, compõe os braços e, amortalhado em um pobre lençol (que é o despojo que leva de todas as coisas deste mundo) o põe na casa sobre um pano negro, com luzes a uma e outra parte. Vêm os ministros da igreja, rezam o responso, tomam em peso o cadáver, que está mui inteiriçado, frio e pesado e com princípios de corrupção, e descem para o meter na tumba, despedindo-se dele os domésticos com algumas lágrimas, que brevemente se enxugam e para o defunto são totalmente inúteis. Caminham à igreja, aonde está prevenida uma cova, e amontoados a um e outro lado dela muitos ossos e muita terra que lança  de si o fartum dos mortos, de que costuma ser cama. Este espaçoso e ameno palácio onde há de morar o novo hospede, até que a trombeta de um Arcanjo o acorde e o mande levantar, para que dê conta e leve o prêmio ou pena do que serviu ou ofendeu a seu criador. Ali deixam cair o cadáver, ossos e terra por colchões, terra e ossos por cobertores. Começam a calçá-lo a golpes de enxada, põem-lhe uma  laje em cima; vão-se os circunstantes, uns a comer e beber, outros a rir ou contar novas, outros a tratar do seu negócio. E daí a poucos dias desapareceu até a memória do tal defunto, e ainda a mulher e filhos o nomeiam poucas vezes, e talvez para o praguejarem, se deixou pouco remédio
 Vês, alma minha, o que é o mundo? Vês o que é o corpo? Pois para que adoras no regalo e comodidade do teu corpo? Para que idolatras na estátua fantástica do mundo? À vista de tão horrendo espetáculo e desengano palpável, não me dirás de que serve desvelar-te por amontoar fazenda com inquietação da tua consciência, por crescer na honra, por sair com teu apetite? Onde está agora tudo que deu prazer e recreação a teus sentidos? Que proveito tirastes da vaidade e da malícia? Como és tão néscio, que com ofensa grave de Deus cativas a tua alma e o teu corpo, e todo o tempo e cuidado se te vai em acomodar, fomentar e defender? Não vês que é pó e bichos, horror e podridão? Não sabes que te não há de pagar esses obséquios senão com tormentos?”



Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.



domingo, 13 de novembro de 2016

O ENTERRO DOS ENVENENADOS















Começava a escurecer quando a caminho do Pelourinho, acompanhar  o enterro de pessoas envenenadas. Cerca de 50, entre jovens, adultos e crianças. Ruas apinhadas, carros, gente. Correm, indo e vindo sobraçando compras. Operários de macacão faziam instalações elétricas, construíam palcos sobre estruturas metálicas, zoeira. Semana de carnaval. Doze de março de dois mil.  Pensei até em ir pela Baixa dos Sapateiros, Não pegar engarrafamento, mas resolvi deixar o carro nos Barris e seguir a pé pela Avenida Sete. Na altura da Praça Castro Alves, que ainda não era totalmente do povo, muita  gente.  Teria muita  dificuldade em atravessá-la, mas tinha pressa porque estava  atrasado. Pensei, se eu subir a torre da Barroquinha poderia ter um bom ponto para alçar voo. Engano. O campanário está no mesmo nível da Chile, ou talvez mais baixa, por cima da qual  haveria de sobrevoar.  Mesmo assim, subi naquele Mibunge (assim a chamavam os negros de língua quibunda)  de lá, pulei, conseguindo um pequeno vôo até o inicio da Rua da Ajuda por onde tomei o caminho do Pelô. Claro que tive medo daquela rua. Quem não tem medo? Os travestis abordam. Não se sabe como responder. Se desagradá-los =, a violência é certa.  Se nada respondes, serás esnobe, está discriminando. Os sorriso pode ser um  escárnio. Mas, ao final, passei ileso, tendo de explicar, não ser  fumante, não tinha cigarros. O pelourinho, deo gratias. Os caixões do moribundos, numa rua atrás da Cantina da Lua. Um sobrado barroco em penúria secular.. A esta altura já tinha escurecido e a casa estava toda iluminada com velas, apesar de ter nela luz elétrica  como as demais.
Uma multidão esperava sair o enterro, mas tudo estava atrasado pois as pessoas envenenadas estavam demorando de morrer. Desenganados por médicos, curandeiros, babalorixás, yalorixás e os demais que se metem a curar os males da carne, esperavam resignados até morte chegar.  Esperavam  sentados no chão, em cadeiras, nos sofás. Outros por serem, talvez mais práticos, estavam esperando a morte já dentro dos caixões, conversando animadamente, matar o tempo. As pessoas  traziam comida e bebidas, tanto pros moribundos, quanto pros velantes. Chegando, fizeram questão de me dar um lugar seguro para descansar. Um quarto onde havia uma cama de casal, na qual já descansava alguém. Que não me incomodasse. Bastava deitar de valete. Não me incomodei realmente, tanto que nem deitei de valete, uma vez que a cama era muito larga e havia dois cobertores.
Dum quarto de meia-parede, ouvia os comentários sobre o acidente do envenenamento das pessoas e, claro, tinha medo, um inexplicável temor que se apoderava de mim, sem razão aparente. Falavam em indenizações, em vingança e mesmo em perdão do Cristo. Preces eram feitas, não pedindo a melhora dos condenados à morte, ou que morrendo  subissem ao céu. Pedia-se firmemente a morte, diziam, minorar seu sofrimento e o deles. O velório se tornava cada vez mais cansativo e as discussões cresciam. Há de se fazer este enterro logo;  Como enterrar, se eles ainda não morreram? Os próprios condenados alegavam já não agüentar mais esperar a morte. Um queria ser cremado, em lugar de enterrado, mas outro meio gaiato disse que preferia ser mesmo enterrado, porque queimado, o Senhor Deus ia ter um trabalho da zorra pra juntar as cinzas no dia da ressurreição.  Ninguém conseguiu segurar o riso, mas al fim todos acordaram  em  ir seguindo pro cemitério, era o tempo de eles  morrerem.
Começaram a retirar os caixões. Nova discórdia. Alguns queriam logo tampar os caixões,  outros discordavam  iriam sufocá-los e não podiam fazer isto. Alguns argumentavam,  eles iriam morrer de qualquer forma, pouco importa, seja por asfixia ou envenenados. Vão morrer, mas não se pode sufocá-los, seria desumano, além de se cometer  assassinato, pois não se pode antecipar a morte de ninguém, disse um legalista. Nova  discussão:  Os caixões não podem sair pela cabeça, devem sair pelos  pés. Mitos, medo, costumes, superstições.  Saíram por fim todos. Eu que,  durante todo aquele  tempo fingira dormir, chamei meu companheiro, temia ficar preso ali. Não posso me imaginar preso naquela casa ou em qualquer outro lugar, morreria mais depressa que os envenenados. Ele acordou assustado. Não poderíamos sair imediatamente. Pelo sim, pelo não, poderiam descobrir ser eu o culpado pelo  envenenamento daquelas pessoas. Ah, meu companheiro de cama sabia mais de mim, do que eu próprio. Eu não sabia qual a minha relação com aquele cortejo a caminho do cemitério. Pasmo, pedi que me explicasse o  acontecido, ele negou explicações. Não era o momento. Que então saísse sozinho, ver e sentir o ambiente, sondar a barra. Ele saiu e eu fiquei calçando meus sapatos. Apesar de não gostar de sapatos com cadarços,  estava com um sapato social preto, feito por  Waldemar, o mago dos sapatos, lá na Princesa Isabel. Baixinhos recorriam a ele,  sabia como ninguém, fazer sapatos. Fazia-os de todo jeito, de salto duplo, com  palmilha alta, escondendo a altura do sapato que o gajo  parecesse  mais alto.  Toda a Bahia lhe devia. Encomendas até do Sul e da Europa. No meu caso, ele aumentara de dez centímetros, assim parecia eu mais alto e elegante. Elegância que tinha um preço. Cansaço.




Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.