sábado, 11 de junho de 2016

CRIME SEM CASTIGO



Salvador, 20 de janeiro de 2012










Caro Amigo,

Há muito tempo que tenho vontade de te falar algumas coisas que estão presas  dentro de mim, mas confesso que nunca tive coragem, principalmente porque você me dissera, uma  certa feita, que a família da vítima de um assassinato  poderia ajuizar uma ação indenizatória e ser indenizada pela morte da pessoa. Com certeza, pagar pela morte de alguém é mais penoso do que ser preso, porque se sabe que ninguém cumpre o total da pena e mais cedo ou mais tarde, se consegue a liberdade, mas se mexe no bolso...
Você não sabe o quanto tenho sofrido em manter este segredo dentro de mim, sem que possa partilhar nem com uma pessoa que tenho como meu maior amigo. Foram noites e noites sem dormir, sem alguém a quem  confiar. Sempre confiei em você, mas você teve uma paquera com ela. Tinha medo, e além disso, você foi sumindo e, claro,  tudo diminui com a distancia.  Tinha medo de se descobrir tudo, nunca se sabe as voltas que o mundo dá.
Sabia que o crime prescreveria ogano e hoje li no jornal sobre a prescrição. Este dia era esperado por nós, na mais absoluta angustia. Esta noite, como em inúmeras outras,  estive pensando. O crime já prescreveu, por que não te contar tudo? Ninguém vai pagar mais por coisa alguma. Por isto resolvi te contar o que aconteceu. Você me havia dito que tinha vontade de escrever sobre o assunto, mas você mesmo tinha medo. Vou te contar tudo, não sei escrever como você, cabe-lhe fazer de meus escritos o que  bem entender.  Deixar do jeito que está, fazer um romance, um conto policial, um estudo de criminologia, de psicologia, enfim o que quiser. Faça de conta que tudo foi escrito por você, eu não quero nem saber de autoria e muito menos de direitos autorais. Basta, claro que inda tenho medo, mas seja lá o que Deus quiser.
Você não sabe, rolou muita coisa antes que se jogasse o corpo dela nas dunas. Hoje não me lembro de certos detalhes, mas vou fazer o possível para me recordar, com a ajuda de alguns recortes de jornais que guardei comigo a sete chaves, sem que ninguém soubesse,  e, a despeito das mil mudanças que fiz, ainda os tenho sob minha guarda.
Naquela noite, estava como que embriagado, porque não me embriago nunca, mas nem sei mesmo, se não  completamente bêbado, por  ter consentido em se fazer tanta miséria sobre uma pessoa. Hoje me sinto perplexo e enojado. Posso agora refletir o que não poderia ter também acontecido com você, quando, ainda não familiarizado com as maldades do homem, em Paris, se juntava a  jovens  do mundo inteiro,   de idéias  estapafúrdias, de formação as mais diversas, e até mesmo contrária da sua, como você me dizia, nos longos bate-papos que tinhamos, e se entregavam,  às noitadas, ao prazer próprio da juventude, sem medo algum, porque o medo não é sentimento que faça morada no jovem, ou mesmo o frequente amiúde.
Você poderia ter passado pelo que passei, e o que é pior, em país estrangeiro, onde fatalmente a aplicação da lei é mais rigorosa do que aqui. Porque, juro, nada fiz pela prescrição, foi  ineficiência e inércia da policia e da própria justiça,  autoridades e funcionários, preocupados unicamente com o contra-cheque do fim do mês e as "custas por fora", o CPF,  complementar da féria do mês que o judiciário o poder mais corrupto da república.
Gastei o mínimo, muito embora outros tenham gastado quantia até vultosa pra matar o processo, fazer chegar a este fim. Em outros países todos nós teríamos um mínimo de remorso, certamente alguém de nós, arrependido, já teria se apresentado à justiça e confessado e ai todos estaríamos perdidos.  Fui eu que matei aquela mulher. Mas nós somos cara de pau. O brasileiro morre negando, dizendo  mentiras. É incapaz de reconhecer o próprio erro. Gostaria de saber porquê somos assim. Admira-me quando vejo na tevê,   em outros países,  acusados de qualquer crime confessarem:  "Eu sou culpado". Uns até se matam perante as câmaras, como fez Robert "Budd" Dwyer, dando  um tiro na boca, numa entrevista  coletiva, por ter sido  acusado de receber, como tesoureiro do estado, US$ 300 mil, numa barganha. Não confessou, mas fez um discurso digno de um grande tribuno.
Agradeço a Deus por meus 47 anos de desafios, experiências estimulantes, momentos felizes, esposa e filhos maravilhosos. Sem razão, minha vida virou. Pessoas  me telefonam e escrevem desesperadas. Sabem que sou inocente e quero ajudar.  Num país que se vangloria de ser uma democracia, nada pode fazer a plateia  afim de evitar minha punição  por um crime que todos  sabem que  não cometi.
Malcom Muir é um juiz conhecido por sentenças medievais. Enfrento, na prisão,  pena máxima de 55 anos e multa de  300 mil dólares,  por ser inocente. Aqui os juízes não têm pejo de alardear para a imprensa o que bem entendem, fez Muir.  “Sentiu-se mal”  ao culpar-me, mas não  se sentiu mal em dizer que vai me condenar, esquecendo-se dos demais envolvidos. Estes sabem da minha inocência, estou como bode expiatório, não passando tudo isto  de perseguição política. Isto é  um gulag americano.
Acreditam em mim, peço  a amizade que sempre tive e rezem por minha família, trabalhem por um verdadeiro sistema judicial  nos Estados Unidos, esforcem-se pela minha reabilitação.  Que  nossas famílias não sejam maculadas  por esta injustiça contra mim.
A justiça e a verdade hão de prevalecer, e,  inocentado,  devotaremos o resto de nossas vidas ao trabalho para criar um sistema de justiça justa  nos Estados Unidos. O veredito de culpa da culpa presumível impera, mas nossa luta irá mudar um dia o nosso sistema legal.

Repentinamente interrompeu o discurso, tirou de um envelope  um revolver e atirou na própria boca; Correria na estúdio, as câmeras registrando  sua queda a jorrar  sangue pela boca, pelo nariz, pelos ouvidos. Dantesco? Trágico? Mas a pura realidade, um espetáculo realidade, como nunca se viu antes.












Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.





quarta-feira, 4 de maio de 2016





















Enquanto se remoía no salão as ideias mais estapafúrdias,  Dá, saiu a respirar, no quintal, um pouco abandonado do sobrado.  Algumas  ervas estavam  cortadas por ela que pastava e comia a ração  diária. Um cocho de comida, outro d´água. Estava deitada ruminando, de ubre túrgido. Ela a tocou, em cada teta.  Ela pareceu gostar,  túrgido também ficou.  Ao repuxo das tetas, branco leite esguichou cálido sobre suas mãos, umedecendo-as delicadamente. Ouvia-se o burburinho, mas não se podia distinguir vozes. A mão se insinuava entre as tetas. Um fogaréu tomou conta do corpo. Maravilhado. Quanto tempo, mesmo presentes corpos lindos, não acontecia. Perder a oportunidade, não podia, nem devia, apenas cuidar. Não ser pegado nesta função zoofílica. Ânsia e medo de denunciar sua parafilia. A mão nas tetas escorregava lentamente até a xiranha intumescida e quente. Suavemente o vai e vem e o balido suspirado misturado às vozes vindas das varandas. Cuidar, que venha logo, que não venha  um curioso atrapalhar. Jogar sal no fogo espantar o azar. Onde está o fogo? Cadê o sal? Se sair daqui amolece, e adeus saudade. Melhor continuar, mesmo que arriscado. Um friozinho bateu no espinhaço, quando chegou à copa beber água. Cantarolava uma canção não quero ser carneiro nem a ovelha tosquiada do peão.  Vozes, vozes se misturam ao grito. Ora, ora, Horus.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

ULTIMO SONO















Ouviam-se apenas os estalidos das folhas crestadas pelo sol. Caiam retorcidas sobre o chão quente e endurecido. Nem cigarras, nem pássaros, nem farfalhar de folhas. Não havia. Tudo era plano, quieto e cortado por numerosos caminhos que se cruzavam e não levavam a lugar algum.
Caminhava, por caminhar. Lá e cá, mandacarus abriam seus braços espinhosos. E deitavam sua magra sombra sobre a areia esturricada. Gravatás, xique-xiques e mancambiras ornavam a terra quente e pedregosa. Caminhava. E vi seu corpo moreno estendido ao longo de uma vereda.
Sob o céu azul, inúmeros pontos negros ensombravam o chão, outros pousavam simplesmente sobre galhos de mato seco. Angicos, sumarentas quixabeiras e sempre verdes juazeiros. A boca entreaberta deixava adivinhar pedaços de carne sujos de sangue coagulado. Outros, arrastavam-se pela areia carregando a carne que era sua. Alguns dormiam a sesta, após saciarem-se do banquete que lhe fora oferecido.
Seu corpo moreno. Seus olhos, antes feiticeiros, travessos, eram dois buracos negros que levavam não se sabe aonde. Seus seios. Pequenos, sensíveis - quanto eu os afagara! – agora, assemelhavam-se a dois pequenos formigueiros povoados por larvas e vermes hediondos.
Seus lábios. Antes doces e suaves, tinham o gosto de sangue putrefacto.  O corpo todo, antes, repleto de graciosas curvas sacudidas por vibrações eletrizantes, deixava antever, aqui e ali, por entre as chagas supuradas, toda sua conformação óssea.
O monte de Vênus, onde se escondiam supremas delicias, era uma cratera imunda visitada por moscas, mosquitos e aves de rapina. Estas, apoderavam-se, de quando em quando, de seu corpo, de sua carne, indo ao depois  brigar ao longe pelo maior bocado.
Eu me acerquei cambaleante de minha amada. Exalava um fétido ar que entrava em mim,  provocando-me náuseas e vômitos, como  se tivesse bebido todas as adegas do mundo.
Fiz-me forte e me acerquei mais ainda de seu corpo. E minhas pernas dobraram-se. Meus joelhos sangraram o solo que o sol queimava. Com o estrépito de meu corpo sobre o chão, afugentaram-se algumas aves que insistiam e aproveitavam-se dos últimos bocados de minha amada. Planaram preguiçosamente, pousando aos poucos  em mandacarus de braços abertos.
Meus olhos regaram  o esturricado  chão tropical. Meus braços abriram-se e minha boca. Triste foi minha voz não encontrar eco. Ela sabia que eu amava sua voz. Mais triste ainda foi não ver o seu sorriso, nem ouvir os seus gemidos. Os mais belos.
E ali. – Eu – à vista de seus últimos e mais fiéis amigos,  realizei o meu derradeiro e interminável ato de amor. E abraçado aos seus restos, fui-me apoderando de uma sonolência tranqüila e galopante. E fui dormindo. Fui dormindo. Dormindo. E dormi. Meu ultimo, mais sereno e infinito sono.
Caminheiro que viajas a lugar nenhum,
Quando passares, por aqui,
Apanha um lenho qualquer e nele inscreve:
Aqui jaz um homem que amou
E sua amada.




(Publicado com pseudônimo El Carmo na Coletânea LITANIA – O Grito da Esperança - Contemp Editora Ltda, 1989, Salvador-Ba).
Na Coletânea de Contos – Ed.  Scortecci, 2009, São Paulo-SP. Pseudônimo El Carmo.
In,  http://deus-carmo-literatura.blogspot.com.br


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

E TU SILENCIOSA. APENAS RIAS

















           Porque sou feio tu nem sabes que existo. Porque sou tão pequeno, tu nem me vês, quando te olho. Existo Cristina. Desde o dia em que te vi na capa daquela revista. És alegre, e, no entanto, tens os olhos sensualmente tristes.
          Segui teus passos apreensivamente e vi-te deitada sobre o feno. Tu não te lembras. Corrias vaporosa, talvez, os lugares chique do mundo, quando te tomei pelo braço e te trouxe a meu quarto. Pus u’a música, deliciosamente sensual, na vitrola, perfumei-me com essência de jasmim e corri prus teus braços. Tinhas uma camisola branca com rendinhas amarelas. Olhavas par o teto, pensativa, com a mão direita sob a nuca. Com a esquerda, guarnecias a camisola, talvez por resquícios de pudor. E fiquei minutos em pé a te olhar. Teus cabelos negros. Teus olhos castanhos. Tua boca sempre entreaberta. Eu me lembro. A camisola jazia entre tuas pernas, formando um lindo triângulo. Pairava um cheiro de flores silvestres. Tu não dizias palavra. Parecias estar gostando. Parecias não estar gostando.
          Nu. Eu te olhava. A mão começou a acariciar-me. A esquerda. A direita. Tocava meu rosto. Meu peito. Meu umbigo. Descia por minhas pernas. As unhas faziam cócegas gostosas e engraçadas. Os dedos se enfiavam docemente entre os pelos. Meus olhos se enchiam d’água. Minha boca ressecava. Meus gemidos não te assustavam. Mas eu me recordo. Eram estranhos. Dolorosos. Solitários.
          Às vezes, tu viravas o rosto tristemente e paravas meu movimento. Punhas a cabeça sobre o braço e quedavas pensativa. Descobri um angulo agudo nos teus braços, por onde tu mostravas os teus seios de pontas vermelhas e eriçadas.
Eu recomeçava o jogo. Tinha passado um creme nas mãos par amaciar. Agora me sentia melhor. Te disse que gostaria de ser bailarino, porque acho que um bailarino sabe mais fazer amor. Te prometi fazer um poema inspirado em ti. Talvez tenhas esquecido ou nem saibas disto, mas demoramos mais de duas horas no jogo do amor.
          Tu me prometestes um postal de Roma. Tu me pedias para falar. Falar. Falar. Porque gostavas de ouvir meu falar brasileiro. Eu achava sensual teu falar italiano.
          Eu te coloquei entre minhas pernas e tu gritastes, que estava te amassando. Tinha esquecido a tua fragilidade. Que ânsia. Já eram três horas da manhã e eu não estava cansado, apesar de ter acabado de chegar de longa viagem de ônibus. E pensar que no dia seguinte teria de fazer uma prova às oito na faculdade.
          Eu te expliquei que vivo uma vida atribulada, morando no interior e estudando na Capital. Além do mais, tenho meus problemas financeiros, pois inda este mês, tive dois títulos protestados pelo banco, por falta de pagamento. Que sou bom profissional, porém, ainda não tenho o reconhecimento  público, e que nesta profissão, está mais em jogo os interesses políticos e econômicos do que mesmo a capacidade profissional do indivíduo. E que se fosse um rapagão,  irresponsável,  brincalhão e burro, mais sucesso teria do que sendo cerebral. O jogo do amor se tornava extenuante e demorado. Outras vezes, mal começava, chegava ao orgasmo. Sem graça. Insosso,  egoísta.
          Contigo talvez tenha sido inibição. É um sonho louco ter-te em meus braços, na minha cama, quando sei que todos os homens do mundo te desejam. Tu não te recordas, mas foi preciso repetir o disco várias vezes. Ouvia-se ao longe o latido de cães e a zoada dos autos na avenida. Eu não sabia mais se os latidos ali eram do Animals Dogs de Pink Floyd ou de cães perambulando na madrugada. How  I wish you were here. Chorava a guitarra, cortando minha carne, rasgando minh´alma, chorava eu. Cansado estava. A mão direita não mais suportava movimento algum. Estava disperso. Acendia a luz. Apagava a luz. Olhava tua imagem. Concentrava-me. Em ti. Me lembrava de cenas vistas na infância, algumas das quais eu participara ativamente. Um casal de cachorros. Uma jumenta. Gatos miando no telhado. Os gritos lancinantes de uma porca. O dia em que peguei Terezinha debaixo de um pé de quixaba.
          Não conseguia. Estava molhado de suor. E ia desistir. Me olhavas tão meigamente triste. Lembras-te? Amarrotei teus lábios, teu pescoço, teus seios, teu corpo. Um frêmito perpassou-me todo o corpo. Como uma navalha. Veio do mais dentro de mim um líquido. Cortante. Inundando nossos corpos. Lacerando nossa carne. O perfume do amor invadiu o quarto e a música. Gritei um grito de prazer e dor.
          E tu silenciosa apenas rias.
          E tu silenciosa apenas rias.
          O riso moreno de teus olhos castanhos.
          O sorriso. O mistério da madona.
          Me vi.
          Só.
          As mãos.  Meu corpo. Teu corpo. Umedecidos.
          Enxuguei-me com tua roupa. Tu te lembras? Fui ao banheiro e joguei tuas roupas na cesta de lixo.
           Tu te lembras?



(Publicado na Coletânea GOTA D´ÁGUA, Ed. CONTEMP/GALDEN’s, 1990, Salvador).


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.



domingo, 17 de abril de 2016

VIAGEM DENTRO DE MIM
















 Relaxa cara eu não vou te matar teria dito eu, ao gordinho que me pediu para não matá-lo. Ele se cagou todo quando botei a arma em cima dele. É nenhuma, meu rei. Você não é o meu. Queria apenas fazer medo, mostrar que vocês todos são uns cagões. Todo mundo pedindo arrego, mas na hora de pegar no meu pé, todo mundo era o porreta. Juro que não queria isto. Nunca pensei nisto, quando a gente vê, já fez. Eu estou aqui, nesta pedra gelada. Cadê  alguém para me buscar? Nem parente, nem derente.  Vergonha? Quando deviam ter, não tiveram. Agora todo mundo é bonzinho, só eu sou monstro. Pensam que não sofri por isto? Ninguém é melhor que ninguém. Só não se tem as mesmas chances. Não reclamava de nada. Iria adiantar? Reclamar, com o jeitinho, senão será pior. Agora inventam coisas. Em minha boca, palavras que nunca disse. Vasculham minha casa, como se fosse um cão danado. Quando só, ninguém me visitava. Minhas memórias, queimaram-nas, pior que a morte. Esconjurado estou, famoso, não. Buscam razões onde não as podem encontrar. A mídia vai à loucura, dinheiro. Ninguém me compra um jasmim, adoçar o ar. Frio nos ossos e na alma que se não partiu, inda atrelada a meu corpo virgem e sedento de amor e compreensão. Anátema. Uns nascem para brilhar, ofuscando outros, debatendo-se na escuridão. Injustiça? quem sabe? como compreender as leis do mundo? Sim, doloroso é. Quando virão  me buscar? Não volto mais, alguém já voltou, para contar da luz, das trevas?  Ficam as obras, para onde fui empurrado? Manchada a família. Qual, Que imagem? A do oprimido? Outros se banqueteiam na orgia e concupiscência. Não tenham medo, logo nos esquecem. O mundo quer escândalos, mas tudo é fugaz, superficial, a essência, ora a essência, motivo de deboche. Vaidade. A aproveita-se da bondade e da inocência e se explora e humilha. Não os levam a sério, não os respeitam, depois surpresos e indignados com a revolta. Estou te estranhando, você nunca foi assim. Querem a submissão, mas ninguém se conhece, pode explodir. Se se sabe, seria pior ou entediante, ou mais perigoso, ou, ou. Um julgamento, sem defesa, cada palavra uma ofensa. Falsidades, deslealdade e hipocrisia. Filisteus, dizia Nietzsche. Um dia se verá que somos, e surgirão heróis, louvados e decantados. Especialistas, na mídia, explicando, doutoralmente, o inexplicável. Os meios de comunicação ganhando com a miséria do mundo. Mentira deslavada empurrada goela abaixo, o rebanho a recebe num misto de medo e prazer. O diferente, vilipendiado e humilhado, seu sofrimento leva a turba ao orgasmo. Não pensar como a maioria, é ser o outro, o infiel, o desleal, o falso, o corrupto e o perverso. Meu velho professor:  Não lute contra esta corja, será esmagado e fui. Ainda aqui, nesta pedra fria. Lá fora, elogios e promoções. Chora a turba. Matariam  mil vezes, se pudessem. Matado já estava, fingiam não ver. Espero que ninguém se mire neste espelho, nem me ache um gênio, nem sentir-se honrado em ser morto. Todos os caminhos levam a Roma, sabedoria é buscar o menos doloroso, embora nem sempre possível. Muitos superam humilhações e abusos, mas, repetindo o chavão,  cada homem é um  mundo. Não se quer entender isto, chocam-se depois, com a revolta do assediado, do humilhado. Não é uma justificação, é reflexão.  Não culpem  ninguém, culpados somos todos nós.  Só o desonesto nega isto. Cometem pecados, dão esmolas. Absolvição, paraíso. Por que não enxergar os negócios sob togas, guarda-pós e batas?  Armas para  vida transmudadas em morte. Agora sou vendido a preço de ouro. Brigam  por uma informação. Melhor recebe, quem melhor paga.  Todos querem tirar uma lasquinha. Nada sabem da história, mas fazem declarações. Pura vaidade. Que não se aproveitem para arrotar valentia. Já nada sou. Que não motejem, bradando palavras que não disse, nem incentivem a violência contra o outro,  as minorias, os diferentes, os desiguais. E vocês, não tenham medo. Daqui pra frente tudo vai ser diferente. Os omissos terão mais cuidado, pensarão mais em vocês. Os hipócritas,  os analfabetos e esnobes, que têm nojo de pobre,  saberão usar as palavras, saberão que a pirraça mata aos poucos, mais cruel do que a ação de matar. Verão o massacre de cada dia, sem o alarde de agora. Monstro, sou, não quando era massacrado. Reflitam sobre os atos do homem, e deixem de fazer espetáculo, só enganam os comedores de novelas,  futebol e carnaval, não os que pensam e se preocupam com o humano. Vocês só se preocupam em mostrar-se, não  em chorar os mortos, porque a morte, como a guerra, só a poucos  beneficia. Lágrimas de ritual, como as carpideiras da Grécia. Um emprego. Alguém me olhou? A conquista de  uma nota no jornal, de  um minuto de fama. Mundo vão. Todos se aproveitam, até o papa Bento XVI, que dizem ter sido nazista, quer aparecer. Por que ele não se ocupa da matança de inocentes nas guerras de conquista no mundo? Com as crianças morrendo de fome?  Por que  não se preocupa em distribuir os bens da igreja aos necessitados? Sanguinário, assassino, monstro sou. Ninguém veio me buscar,  enterrado como um indigente, um qualquer. Vergonha de mim. Sonega-se impostos e não se tem vergonha; Vende-se o próprio corpo por um emprego, um pedaço de pão, uma manchete em jornais e não se tem vergonha; Fabrica-se remédios de farinha de trigo, dosagens falsas e não se tem vergonha; Oferece-se propina em tudo, compra-se coisas furtadas,  roubadas e contrabandeada e não se tem vergonha. Hoje, mais do que nunca estou triste. Enterraram-me. Arrastaram meu corpo, inerte e sem resistência, atiraram-me como bestas-feras. Quem não respeita a vida, vai respeitar a morte? Açougueiros, enaltecidos como heróis. Uma  mídia vomitando  fezes para a multidão tresloucada, tentando incendiar o mundo para apagar com o sangue dos inocentes o fogo que provocou. Não sabe a gentalha que a ela só lhe cabem as migalhas atiradas pelos donos do mundo. Homem, como fostes  enganado pelos séculos além! Sofrestes tu quando eras mutilado no Congo pelos asseclas de Leopoldo II  da Bélgica em troca de borracha? E tu Patrice Lumumba,  por ordem de Eisenhower assassinado? Sofrestes? Amarrado à traseira d´um caminhão, arrastado até Leopoldville.  Executado aos olhos de Tschombe. Te deram defesa? Sofrestes? Exumado por Soete, imerso em ácido e incinerado. Não deixar vestígios. Sofrestes tu Lumumba?  Sofrestes tu quando o papa Urbano II deu inicio às Cruzadas? Homens, mulheres e crianças matando e morrendo em nome de Cristo? Chorastes a carnificina de muçulmanos, árabes e "infiés" que não se submetiam à cruz? Rebanho de noveleiros, fanáticos do futebol, claquetes de programas televisos.

 Mentem como cão danado, falaram em suicídio. Havia escrito uma carta, ainda bem. Tiveram de me engolir. Senão seria outra farsa. Heróis de mentira. E o rebanho engole. Os sonegadores de impostos, os compradores de votos e de cargas roubadas, os falsificadores de licitações estão rindo como hiena na carniça de tudo o que acontece e gozam num orgasmo universal a derriça, instigada pela mídia. Logo, logo que estes profetas se tenham desincumbido desta sórdida tarefa serão defenestrados,  jogados no panacum de cascas podres por esta mesma imprensa e poder econômico que hoje lhes balançam o turíbulo.  




Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.http://blog.clickgratis.com.br/deuscarmo/

terça-feira, 12 de abril de 2016




















Num só pé como a bela Empusa, como Saci-Perêrê, andou, andou. Aba sui aba supé. No prego, o pé furou,  su alma, enterrado. Vidrocaco abriu seu pé, no atravessar rua. Teresinha chama, Teresinha. O pé cortado, curar?  Curado,  pó de café, curado. Ele apareceu de repente com uma lupa na mão, colocando em frente a seu rosto, arrastando-o, como a um sonâmbulo, hipnotizado. Arrastando-o como se arrasta uma zorra. Apelidaram-no de Boi, não se sabe porquê, e, todos lá no colégio o tinham por boi, sem a sabença de qualquer outro nome. Dizia, o povo da roça gostar muito dele, porque não tinha a fiduncia  dos doutores da cidade. Ela era baixinha e tinha um cabelo loiro e um sorriso eterno que se trancou quando ele disse que a amava. No colégio perceberam,  não mais se falavam. Não mais caminhar em liberdade, té  Bruno Seabra, falar, falavam de tudo e coisa nenhuma. Um vendaval os sacudiu atirando-os longe um do outro. Neófito nas coisas do amor,  não atinara que um não poderia ser, no futuro um sim. Lhe deu as costas per a sempre. Agora procura em vão sua beleza, que será certamente como a Duília de lindos seios que Aníbal viu um dia. Onde estarás, doce pássaro de minha juventude? Lágrimas vertidas n´escuridão de minh´alma, fostes em vão. Tempo devora vidas. Ah, trampolinagens nos quintais, vida menino. Vade se cagou todo, quando a velha Rosalina, segurando-o pelo braço, começou a bater-lhe. Do pé d´araçá pulei por riba da cerca, sem tempo de avisar,  quando irrompeu, manguá na mão, por trás das árvores, velha, feia e rabugenta. Joga chapéu, Vade.  Ficou chapéu, araçá veio, rolando pelo chão, cair em minha mão. Solto Vade, ficou o chapéu, denunciador troféu. Roubados  araçás comidos debaixo da quixabeira, no açude, em terras de Antonio Oliveira. De seus  fundilhos, Vade tirava tolocos saídos na agonia, enquanto a  velha lhe batia. Chapéu prova do crime, denuncia Rosalina, uma sova em cada um, mãe é pra bater, escola do sofrimento, torna o homem,  homem. Pequerrucho e novo, Subi no pilão. Caído  sobre pernas e cabeça. Machuca pilão, cambota fica. O pé do jegue. Recebi uma patada. Esmeraldo, vai buscar hortelã nas poças. Nanã machuca hortelã, nos olhos põe, ensanguentados pelo coice.  Inda hoje, ninguém desta  travessura.  Jumento é bicho manhoso, quando sestra, sai de baixo. Na queda, nem a de cavalo. Quando o tino vai chegando,  aprende-se  a lutar com os bichos, que mais parece gente, não falam, mas entendem o que se diz. Um pouco, gente. As fêmeas são até mulher de muito macho, que aprende com elas os segredos da machice. De vez em quando tem um desastre. Arbino não morreu de jega? Pois morreu, foi comer, saiu comido, caído, de braga aberta  achado, pelo coice, d´ovo inchado.  O véi Quinca foi com  bezerra, encontrado no curral, ensangüentado. Quinze dias durou,  a conta de contar, com pejo, o sucedido. O dedo na porca e olho na porta, até estremecer de gozo. Valdemar mandava buscar espinho de mandacaru pra furar as bolhas de bexiga, antes que ela o  matasse, como matou Ramsés V e Luís XV, O Bem Amado. Saía-lhe um pus amarelo. Lenço limpando  a carupemba.  Sai de perto menino, bexiga pega. Se não chovia,  bebia água salobra da presa de Pedro Carneiro. Na feira, Pedro  vendia água de pote.  Está chegado em Capela, meninos marcham em roda da carnaúba, um tambor marcava passos indecisos.  Viu Zé Mancambira  no oitão da casa de Lane, última  na estrada do Noventa. Arremeda  o zunido de um carro. Seu mantra, seu calmante. Arreliavam dele, em sua capa colonial. Roque de Damião gostava de fazer medo.  o mundo ia acabar. Dona Juliana gostava de mijar em pé.  Abria as pernas, xíiiiiiii. Não se importava que a gente visse o rego se  formar. Canta, canta  Maria Pinhão toda tarde, a tarde toda. Roda Pião, roda pião, roda pião.  Dona Rola se  irritava com a inticação da Pinhão. Perder seu marido de vez a Pinhão não  leva não. Não chore não, Lé / pra que chorar,  Lé, / a vida é esta / um amar, outro gozar, Lé. As tanajuras, enquanto vida ainda lhes sobrava, esvoaçavam, esvoaçavam no verão das chuvas primeiras. Zuuuuummm. Os pernambucanos, calejados da seca, as pegavam, concorrendo com pássaros e tatus,  par comer assadas. Cortavam-nas pelo abdômen as jogavam na frigideira, com manteiga ou seu próprio óleo amarelado. Herança de nossos índios e já apreciado por Anchieta e Gabriel Soares de Souza, chegados numa bundinha de tanajura. Cai, cai tanajura na panela da gordura!  Cheiro danado.  Hoje comprovado, fonte de proteína mais que o boi, até projetos em estudos de criatório de formigas e outros insetos. Suprir o mundo de proteína, cada vez mais cara com as carnes tradicionais. Não dizem que formiga faz bem pra vista, e nunca se viu um tamanduá de óculos?  O povo é sábio:
Não existe melhor cura
P'ra doenças de garganta
É bunda de tanajura
E injeção não adianta


Sertão, o flagelo da seca. Morre-se de sede e fome. Estão os homens interessados nisto? Tão barato um poço artesiano. Não, o dinheiro  é só  pras orgias, metrôs, campos de futebol. Grandes obras enriquecem. Mais empresários que políticos, pobre paus-mandados.  Daniel aleijado trabalhava na semana e nos dias de feira pedia esmola. Mordendo a língua  concertava arreios, fazia bainhas. Facas, facões, punhal e punhaletes. Vindo d´aroeira, criou filhos, com exemplo de coragem e abnegação.  Cirilo remendava  sapatos, rindo a morrer do sucesso triste. Só se ria de miséria. Um Diógenes remendão se rindo da miséria do sertão. Que mal havia no mundo que não fosse pra purificação do homem? Não se chora do mal, ele é nosso mestre.  Quem com ele não aprende, com mais nada aprende. Melhor a loucura que o prazer, embebedar-se com o prazer escurece a mente e nos deixamos dominar pelos mais fortes e mais sagazes; Da vida só precisamos viver, melhor viver entre corvos que entre bajuladores. Os corvos só comem os mortos; bajuladores devoram os vivos. Ri é o melhor remédio. Mata tua angustia e a do próximo. Cínico ou estoico  tu Cirilo ensinastes até a quem não imaginastes ter como aluno. N´Aroeira, Pedro Marcilio, vaqueiro,  pega boi no calumbi.  Toda feira bebia, a feira toda. Enciumada de Angerca,  Pedro Marcilio furou, com peixeira na barriga, corria  Constança,  gritaria,  bofe e tripa segurando.  Pedro Marcílio afamado, vaqueiro, dele diziam, caparia de um só golpe, um cabra de Lampião. Dona Oláia fazia suas lapinhas imitadas, mas não igualadas.  Dézinha gritava sua dor, olhos negros sobre todos. Medo? ou proteção  querias?   O povo, sim, tinha medo. Alma penada no mundo. Encosto de  noivo morto.  Paixão. Fuga de noivo, na  lua cheia, na garupa traçoeira do alazão,  amiga leva.  Encarnação do tinhoso. Se fosse na Idade Média, os padres já a tinham queimado,  como se queimou Joana D´Arc, depois virada santa. De possuída a santa. Dizia falar com Deus. Quem és tu pecadora, pra falar com Deus?  Dos mais santos poucos papearam com ele.  E tu presunçosa, blasfemas contra o senhor, dizendo conversar com ele? O que tu ouves? Não é mesmo, a voz de Belzebu, fingindo-se de Deus?





Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

sexta-feira, 25 de março de 2016

CARNAVAL IEMANJÁ



















Hoje é carnaval na Bahia, mas também, e acima de tudo, Dia de Iemanjá. Abiãs com seus contra-eguns, ogãs, babalaôs, apetebis,  babalorixás, dotês e donês, Tatás de Inquice, mametus de inquice, o alapini do Brasil, assobás, yalorixás, iyakekerês, Iyalaxês, agibonãs, Iyabassês, ajoyês ou ekedis, babakekerês, akepalôs, ogans, yaôs-eleguns com seus idês, ebômins, kakanfós, obás, obaxoruns,  abás, balés, aquirijebós, amobirins e até alibãs, todos devotos, e com seus brajás e aladoris na cabeça, diante do peji,  entoam a saudação à Rainha do Mar, Odô Iyá, filha de Olokum e esposa de Olofin-Odudua: Omi ô odo iyá eruiáque, com seu abebê, certamente abençoará seus filhos dando-lhes muito axé. Tocam o rum, o rumlê e o rumpi. Inicia-se o padê. Sacodem-se os agés e os caxixis. Percute-se  os agogôs. Os alabês entoam os cantos. Os adés se sacodem. Começa o xirê. Agbôs ou amassis são feitos. Serve-se o ungê. Acaçás, acarajés, abarás, flores, perfumes, espelhos, enfeites diversos, anéis, colares, fitas, brincos, pentes, bijuterias, jóias, relógios, maquiagens e bonecas, velas, bebidas e comidas, fava  com camarão, cebola e azeite doce e até champanhe são oferecidos, a Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá, tudo feito numa ânsia maluca de afastar o ajogun e alcançar o axé. Nas ruas, o samba de roda, o  ijexá, a capoeira, afoxés, e muita gente vestida com roupas dos rituais do candomblé. Esta é a festa do Rio Vermelho  da Bahia de São Salvador do Brasil. Quem mora no Ponto da Mangueira é um pulo, nem vale a pena uma condução. Todos iam a pé mesmo. Trabalhara até quatro horas carregando pedra. Fazer um muro de contenção de água, pois, quando chovia a água entrava pela frente e saía pelos fundos. Sua casa ficava bem no pé da ladeira do Sobradinho.  Suas irmãs já tinham ido encontrar com as colegas do Colégio Manoel Devoto. Quantas delas  não cobiçara com o olhar distante e erradio. Que não o vissem apalemardo. Pode lembrar o nome de algumas. Neila, Margarida, Iraildes, Vera. Tomado banho, pôs sua melhor roupa, passou brilhantina no cabelo maracanã, jogou  um pouco de colônia 1010 sobre si e saiu augurando encontrar uma garota e, se tivesse oportunidade, a ela se declarar, como se dizia na época. Andava por cima da linha do bonde. Não sujar os sapatos de lama. Já começara escurecer quando chegou ao Largo de Santana. O Trio Elétrico Tapajós tocava. As meninas faziam cordões e brincavam ora em roda, ora serpenteando. Visão que nunca mais saiu de sua mente e que teve repetida quando viu no carnaval de Colônia um mar de loiras valquírias de olhos azuis que nem o céu da Bahia. Estava em voga um corte de cabelo bem curto que passou a ser conhecido como cabelo de coco. As meninas ficavam com  um aspecto de anjos surucos, barrrocos. Lembra-se bem de uma que tinha os olhos tão verdes que pareciam cortar a alma? Como os olhos de aurinha?  A mágica do flerte que era tocar nos longos cabelos passou a ser passar a mão pela cabeça como a consolar uma criança. Se ela sorrisse, a senha da paquera. Bem poucos ousavam tocar as danaídes porque, a despeito de estarem exatamente à procura de um macho, se uma era tocada,  mas não se agradasse  do tipo, chamava a policia ou seus irmãos e parentes que  estavam por ali e a confusão estava formada. Quantos marmanjos não foram presos por um simples toque no cabelo de uma donzela. Quantas brigas  não testemunhara!  Muitas vezes tinha inicio uma briga onde todos brigavam contra todos e não se sabia de onde surgira.  A polícia chegava e prendia, freqüentemente, quem nada tinha com a briga e estava ali apenas tentando separar os brigões. As festas de largo, assim conhecidas, eram os locais onde se fazia a paquera e as brigas. Muitos casamentos tiveram seu inicio nelas. Boa Viagem, Lapinha, Bonfim, Ribeira, Rio Vermelho, Conceição da Praia faziam  a alegria do baiano. Havia um congraçamento de classes, todos compareciam e andavam ombro a ombro pelas ruas, embora alguns privilegiados se beneficiassem do conforto das casas de parentes ou amigos que residiam no local. Só ele estava só naquela multidão colorida, embevecido com os requebros das mulatas, a doçura de olhos cor de mel, o feitiço do verde apaixonado, o mistério do azul da cor do mar, e à profundeza do negro olhar daquelas moiçolas. Só, porque não estava acostumado à algazarra de uma juventude criada com a liberdade das ruas, sem as amarras adquiridas no claustro e no internato, pouco afeitos às meditações e introspecção. Quem tem o privilegio de estudar num internato, sofre as consequências do isolamento que faz com que o jovem tenha medo da multidão e principalmente,  receio de ser rejeitado, especialmente pelo feminino.  Não ter sido introduzido no  mundo do fumo e do álcool,   de certa forma,  muleta e combustível juvenis, foi uma terrível experiência e  por isto, o contato com jovens de sua geração, foi sempre traumático e desolador. Censuravam-lhe a maneira de falar, de se vestir,  de não dizer palavrões, de não usar as gírias da moda e até sorriam de suas conversas. Fala escolhendo palavras, parece  pessoa de outro mundo. Quando no Duque de Caxias, a professora de inglês organizara um passeio à praia de Inema, local já na época privilegiado, (Área residencial de oficiais da Marinha), hoje, famosa no mundo, porque refúgio das lidas de presidentes - Lula e Dilma - descanso  da faina política, no carnaval,  páscoa...  Tempos de rudeza. A tradição, o tabu se debatendo com  as novidades da industria cultural da Europa e Norteamérica. Preso  ao passado, sem roupas de praia, sem sandálias, um alienígena.  As moças, mais afoitas, entraram n´água, os rapazes na areia. A professora ficara na areia com algumas moças. Cadê as mulheres? Perguntou. Todos coraram e ele, atormentado pelo resto do dia.  Todos se entreolharam, um silencio ouvido pelas ondas perpassou. Percebendo sua gafe quis consertar, mas a emenda saiu pior do que o soneto. Mas, não é mulher mesmo? Elas são homens por acaso? Novo silêncio, agora acompanhado de uma certa reprovação no olhar de todos. É que naquela época, dizer mulher era o mesmo que chamar puta. Dizia-se, pomposamente, minha esposa. As solteiras, simplesmente moça, ofensa, chamar moça de mulher. Ofensa  sem perdão.  Traumático, sempre, o embate de gerações. O novo e o passado. Não se admite  mudanças. Sempre perigosa,  quem a quer é louco, ou degenerado. Nas cavernas, quem sabe?  Ser jovem é não ter juízo, sem responsabilidade. Quem mais se parece com os velhos,  é tido como adulto, com juízo,  exemplo a ser  seguido. Por que você não faz como fulano de tal? Ali, sim que é um rapaz ajuizado. Um homem que todo pai queria pra sua filha. Ah se  não fossem os doidos, os sem juízos. Que seria deste mundo? Estaríamos ainda na idade da pedra lascada. Topada é que leva  homem pra frente, diz o ditado.
Mas, como felizmente, o homem não é feito só de barro e sopro divino, como querem os criacionistas,  é antes de tudo o criador do mundo, ou seu próprio criador, na medida em que ele faz sua historia, faz a historia do mundo, ele inventa, ele cria, ele surpreende. Quem duvida de que um dia o homem lascou a pedra e a tomou como instrumento e arma? Que depois a poliu com os mesmos fins? Quem vive o que se vive agora, com as facilidades que a tecnologia lhe garante não pode ter dúvida de que tudo isto foi criado pela mente humana. Se assim não fora, como explicar a diversidade de vida e visões que o homem tem demonstrado ao longo de séculos? Por isto que não se deve lastimar a existência dos arredios e foras do contexto. Serventia, eles têm, é só buscar e ver. Equilíbrio do mundo, por exemplo. Não? Se todos fossem à guerra com igual ímpeto, quantos sobrariam pra contar a história? O mundo é o homem e cada homem tem seu mundo.

Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.